terça-feira, 29 de abril de 2014








“Do profundo estado de necessidade, física, emocional, psicológica e social nasce a vontade inelutável de tomar o destino nas próprias mãos. Actor ou Personagem, Advogado ou Louco, Assassino ou Vítima, Herói ou Criminoso, Corajoso ou Desesperado, o Homem confessa perante um público que acredita ser o seu Juiz, o crime que acaba de cometer contra aquele que afirma ter sido durante anos o seu cliente. Após o brutal assassinato de um homem cujo império criminoso ajudou a construir, o Homem não sabe se quer apenas ser preso e descansar, ou transformar o mundo”.


Ficha Artística e Técnica

Texto (inédito) - Pedro Mota
Encenação, adaptação, concepção plástica - Rita Lello
Selecção musical - Miguel Martins
Interpretação - Ruben Garcia
Sonoplastia - Ricardo Santos
Iluminação e construção da máquina de cena - Paulo Vargues, Fernando Belo
Fotografias – MEF, Movimento de Expressão Fotográfica
M/12

Quinta a Sábado às 21h30 | Domingo às 19h00 Largo de Santos, 2 |1200-808 Lisboa

segunda-feira, 28 de abril de 2014



VASCO GRAÇA MOURA
            1942 | 2014



lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

"Antologia dos Sessenta Anos"


quarta-feira, 16 de abril de 2014


Jorge Fallorca (1949-2014)

(Fonte)

Antes que seja tarde, devo dizer que considero o acto de escrever pouco saudável.
E gostaria que o tom fosse considerado como um desabafo, e não confessional.
Decorrido meio século de existência, aprendi a coabitar comigo mesmo.
Quer essa relação se assuma como um comovido flash back, ou um severo ajuste de contas.
Felizmente, sobra-me mais tempo para esquecer do que para emendar.
Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita – como qualquer outro acto criador – antropófaga até à vileza.
Ninguém se surpreenderá se afirmar que a minha geração superou esse objectivo.
Excedendo-se no show off, ou no striptease onanista, onde um predisposto auditório se reconhece e excita.
A leitura das gerações que me precedem, em nada tem contribuído para perturbar, ou abalar, este assumido preconceito.
Os Pessoa, Kerouac, Ginsberg, Hemingway, Michaux, Aquilino, Cardoso Pires, o exaltante Saint-John Perse, ou o inevitável Herberto, todos me recusaram uma escrita límpida e saudável.
Até mesmo em O Sorriso aos Pés da Escada, o único Miller que conservo, a beleza é perversa e sublinhada por um fio de pus.
Todos eles me envenenaram uma predisposição que começou por ser saudada na escola, e onde a família se conformou em depositar esperança de que continuasse a ser bonita.
E, sobretudo, que tivesse futuro.
Antes que seja tarde, devo esclarecer que ainda hoje tenho relutância em considerar o futuro, e que me reservo o maior desprezo pelo presente.
Sem pretender a honestidade que, dificilmente, reconheço nos outros, arrisco que a escrita – como qualquer outro acto criador – precisa de vítimas.
E alimenta vítimas. 
(Fonte)

Jorge Fallorca, Frenesi, 2004

segunda-feira, 14 de abril de 2014



"O Teatro no séc. XXI e o desafio aos novos alunos de teatro"
Palestra,  ESAD.CR, 15 de abril, às 15h00


O Festival Ofélia é um acontecimento cultural promovido pela ESAD.CR [Escola Superior de Artes e Design, Caldas da Rainha] cuja intenção de raiz é divulgar, junto da comunidade académica, os trabalhos de escolas participantes na iniciativa e desenvolver mecanismos de partilha de conhecimentos e de ideias.


A 4ª Edição do Festival Ofélia vai desenvolver-se entre os dias 14 e 16 de Abril, nas Caldas da Rainha e vai dar enfase ao teatro e às artes performativas - dez espetáculos teatrais, workshops e participação de cinco escolas superiores convidadas.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

POESIA LOGO PELA MANHÃ
Entre as 10h e as 12h do dia 13 de Abril, uma manhã de poesia na Casa Museu Guerra Junqueiro. Iniciativa do clube “Poetas Vivó’s Poetas
(O sempre citado texto sobre a pátria)
«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;  um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;  um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente  inverosímeis no Limoeiro (…)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara  ao ponto de fazer dela saca-rolhas; (…)
Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)» Guerra Junqueiro, Pátria, 1896

quarta-feira, 9 de abril de 2014

LER EM TODO O LADO


As celebrações, em Abril, dos “Dia Internacional do Livro Infantil” e “Dia Mundial do Livro” constituem-se como impulso suficiente para realçar, através de iniciativas ligadas à leitura e aos livros, a importância de convocar cada vez mais meios e vontades para alargar o universo dos leitores e do convívio com as obras e os seus autores.
A APEL, Associação Portuguesas de Escritores e Livreiros e a Câmara Municipal de Lisboa propõem, a nível nacional, encontros com autores, sessões de autógrafos, horas do conto, leitura de poesia, maratonas de leitura e o mais que tiver a ver com este propósito: PROGRAMA

terça-feira, 8 de abril de 2014

2Kgs de frescos valem um livro
LIVROS, MÚSICA E SOLIDARIEDADE
A Editora Edita-me” e a Associação Os Idiotas promovem uma recolha de alimentos para famílias carenciadas do Bonfim, no Porto. Assim e em ‘concerto’ com “Os Porto”, Tozé Santos (“Homem dos 7 instrumentos”) e Luís Portugal, organizam a iniciativa “Dá-te ao fresco” que vai acontecer no dia 12 de Abril, às 21h30, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, para ajudar os que mais precisam. Como? Levando 2kg de alimentos frescos  (fruta, legumes, peixe, ovos…) para trocar por um livro do catálogo da Edita-me.
Sugerido por Bairro dos Livros

segunda-feira, 7 de abril de 2014




apresentação do número 33 da revista às 18.30, 07.04.2014




O Prémio Luís Miguel Nava , atribuído bienalmente, vai ser entregue ao poeta José Bento, pela obra "Sítios", publicada, em 2013, pela Assírio & Alvim.


Jardim erguido inteiro ao ser minado
pela agonia do único antes vivo,
que abandonos e despedidas assolaram:
nele corolas assumem rostos idos,
contra um vento que veste olor de adágio
e entoa variações de cores perdidas,
entre sombras que exalam claridade
e restituem ferido o pleno outrora.

Fecham-se os olhos
para lhe serem refúgio derradeiro,
em seu vazio lhe conceder morada.

José Bento, Sítios, "Jardins I"

sexta-feira, 4 de abril de 2014

"Os romances dos homens nunca são poemas.
 E os romances ou são poemas ou não são nada, são pura recompilação."

Centenário do nascimento Marguerite Duras, existencialista e autora do "novo romance".


Haveria uma escrita do não escrito.
Um dia isso há-de acontecer.
Uma escrita breve, sem gramática,
Uma escrita apenas com palavras.
Palavras sem gramática a apoiá-las.
Ali, escritas. E logo abandonadas.





 Instituto Francês de Portugal (IFP)

Apresentação da peça "Indicação para se perder" 04 e 10 de Abril (de Teresa Coutinho e Constança Carvalho Homem, a partir de textos representativos da autora)

Porto, Mala Voadora (rua do Almada)
Peça "Indicação para se perder" de 11 a 13 de Abril

Instituto de Literatura Comparada Margharida Losa
Programa de atividades relativas à autora, até ao final do mês de Abril

·        Faculdade de Letras, U Porto
Exposição documental -  "Começar a dar voz(es) às palavras"

·         Biblioteca Central
"Leituras Flash -- Marguerite Duras"

Alliance Française, Centro de Recursos
Leituras a duas vozes e em francês e português, de excertos de "L'Amant" ("O Amante")

Baixa do Porto
Até ao dia 11, em espaços diferentes, a instalação "Posso fazer-te uma última pergunta?" (por Marta Cunha e Luís Vieira, a partir de textos da autora)

Casa das Artes
Exibição dos filmes "Écrire" e "La Mort du Jeune Aviateur Anglais" (1993 | realiz. Benoît Jacquot)

Casa Allen

Debates e exibição de filmes 

quinta-feira, 3 de abril de 2014



               A Espantosa Realidade das Cousas


     A espantosa realidade das cousas
     É a minha descoberta de todos os dias.
     Cada cousa é o que é,
     E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
     E quanto isso me basta.
     Basta existir para se ser completo.
     Tenho escrito bastantes poemas.
     Hei de escrever muitos mais. naturalmente.
     Cada poema meu diz isto,
     E todos os meus poemas são diferentes,
     Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
     Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
     Não me ponho a pensar se ela sente.
     Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
     Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
     Gosto dela porque ela não sente nada.
     Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
     Outras vezes oiço passar o vento,
     E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
     Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
     Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
     Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
     Porque o penso sem pensamentos
     Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
     Uma vez chamaram-me poeta materialista,
     E eu admirei-me, porque não julgava
     Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
     Eu nem sequer sou poeta: vejo.
     Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
     O valor está ali, nos meus versos.
     Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

     Alberto Caeiro
     PROGRAMA 




Carlos Fiolhais - "(...) Quando o meu pai me perguntou o que era ser físico, tinha toda a razão. Eu próprio não o sabia totalmente, mas queria ser cientista.[Como nasceu essa curiosidade?] Não foi tanto pelos professores (...) Foi pelas leituras. Os livros que eu li por minha conta, na biblioteca municipal, e que comprava com o primeiro dinheiro que ganhei em concursos escolares. (...) [Mas nos últimos anos não há um retrocesso?] (...) Nos últimos três anos há uma diminuição do investimento na ciência e um decréscimo nítido de pessoas formadas, de bolseiros e menos participação da ciência aos vários níveis. Isso é mau para o país, porque as nações mais desenvolvidas, como a Alemanha, onde eu estive, devem grande parte do seu progresso ao investimento em ciência. (...) [E nos últimos anos?] (...) Não houve a capacidade de proteger a educação e a ciência. E se a primeira vinha mais detrás, a ciência é muito recente - é uma criança. Precisava de ser acarinhada. Corre-se o risco de que com este pensamento Excel que só olha à dívida se vá vitimar a ciência. E isso faz-me sofrer porque estamos a hipotecar o amanhã. A ciência abre as portas do futuro. Se prejudicamos a ciência, que estava em crescimento, estamos a deitar fora essas chaves.(...)"
in:Jornal I, pgs. 28-31, ed. 3 Abril 2014

terça-feira, 1 de abril de 2014

Revista Nova Águia
Desde 2008

"a única revista portuguesa (…) a reflectir sobre o pensamento português"

O 13º número da revista Nova Águia correspondente ao 1º semestre de 2014, procura fazer um “balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva” de alguma forma no seguimento do balanço feito por ele próprio, que considerava o 25 de Abril de 1974 como “um pronunciamento militar sem grande largueza política”.

Do Editorial Nova Águia 13:

 « (…) é no plano cultural que se ganham (ou perdem) as grandes lutas políticas (...)”


“(…) Assim, evocamos, de forma mais detida, Raul Lino – figura maior da nossa arquitectura, nos 40 anos da sua morte –, António Ramos Rosa e António José de Brito – figuras maiores da nossa Poesia e da nossa Filosofia, respectivamente, ambos falecidos no mês de Setembro do ano transacto. Para além disso, debruçamo-nos ainda sobre autores tão diversos como Albert Camus, Amadeo de Sousa-Cardoso, Baltasar Lopes da Silva, Cerqueira Gonçalves, Dora Ferreira da Silva, Fernando Pessoa, Gama Caeiro e Manuel Antunes, João de Deus, José Enes, Natália Correia e Teixeira Rego – este último por Jesué Pinharanda Gomes, que, na sua Rubrica habitual, Entrecampos, evoca ainda a figura singular de Raul Leal, por ocasião dos 50 anos do seu falecimento (...)”