segunda-feira, 7 de março de 2016




escrever poemas não é boa maneira de atordoar os

tempos do verbo,

não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio,

nem perder algures uma perna

e lembrar-me depois de perder ainda a outra:

ninguém ganha assim uma barra de ouro,

ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro,

ninguém transforma assim uma chaga a beleza humana,

tórax e membros e a cabeça por entre a espuma:

e como só de pensá-lo o corpo avança!escrever,

deixar de escrever,

escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa

quanto se pensava

um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,

escrever poemas não é apenas vou ali e já volto à morte do

costume:

colinas tão próximas como se guardassem os nossos próprios

olhos,

e logo depois leva-as o vento para adjectivos longínquos,

tudo tão prodigioso que se não entende nada:

uma rosa é uma rosa é uma rosa - disse ela em inglês

(há quantos anos li isso!)

(há quantos anos fiquei bêbedo desse talhão de roseiras!)

a rose is a rose is a rose et coetera

- mudou-me a vida?

oh faminta ciência da paciência!

coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida,

e então porque não a mudaria uma rosa compactamente

múltipla?

morrer por uma rosa é que fia mais fino:

que fabuloso fio em que roca e em que fuso,

que segredo do mundo
  
in: “Poemas Canhotos”, de Herberto Helder
http://www.ionline.pt/392097

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