terça-feira, 29 de março de 2016

Nathaniel Rateliff and the Night Sweats - I Need Never Get Old (Live)



"I Need Never Get Old"
Can we be there
Oh just think of the time
Thought of love so strange
Said you never knew
While I try my best
To cover our eyes
It's a common way to blame and hide the truth

I know that some will say
It matters but little babe
Ah but come on and mean it to me
I need it so bad

I needed to try
Needed to fall
I needed your love I'm burning away
I need never get old

Taking our time
Ah just standing in the rain
Meaning what you said
Ah and mean it to me
All of these lies
Oh and never again
Come on and say it now say it's a game

I know that some will say
It matters but little babe
Ah but come on and mean it to me
I need it so bad
Ah mean it to me
I need it so bad

I needed to try
Needed to fall
I needed your love I'm burning away
I need never get old

I said I needed to try
Needed to fall
I needed your love I'm burning away
I need never get old

"Ossos"
[Em alguma parte alguma]

depois de vinte anos
mostraram-me a urna
em que tinham guardado seus restos mortais
alguns ossos brancos:
os fémures o ilíaco as vértebras e falanges
Era tudo
– Não pode ser
– Como não pode ser?
– Esqueça – disse eu.
Estava no cemitério de São João Batista, em Botafogo.
Olhei para o alto onde zunia a luz do século XXI.

Vi que de fato
ele não estava ali:
eu o carregava comigo
leve impalpável
como um doído amor



segunda-feira, 28 de março de 2016




HAMLET - Globe to Globe


"Dezasseis homens e mulheres extraordinários viajam neste momento pelos sete continentes dando corpo a uma variedade imensa de movimentos únicos em direcção à sede da UNESCO, em Paris, para um espectáculo no dia 28 de Março.

Hamlet Globe to Globe teve início no mundialmente reconhecido Shakespeare’s Globe, em Londres, no 450 aniversário da morte de Shakespeare, a 23 de Abril de 2014.

Sabendo da morte do rei seu pai, Hamlet regressa a casa e encontra o tio casado com a sua mãe e instalado no trono da Dinamarca. À noite o fantasma do velho rei exige de Hamlet vingança pela sua morte cobarde e sem sentido.

Cruzando a intriga política e a obsessão sexual, reflexão filosófica e acção violenta, densidade trágica e sarcasm duro, é o ‘poem unlimited’ de Hamlet, um colosso na história da língua inglesa e a mais veemente expressão do génio de Shakespeare.

A produção é uma renovada e ágil versão da tragédia clássica de Shakespeare. Um corpo de doze actores intervem em mais de duas dezenas de cenas num palco de madeira despojado, ao longo de umas surpreendemente rápidas duas horas e quarenta.

O espectáculo destina-se a audiências da diáspora e a comunidades de deslocados do Mali, Burkina Faso e da Nigéria onde, por razões de segurança, a companhia não pôde actuar."

in:http://www.unesco.org/new/en/unesco/events/all-events/?tx_browser_pi1%5BshowUid%5D=33150&cHash=de3ec38772





Bilhetes para o espactáculo de Paris no dia 28 de Março de 2016:

MALI: https://www.eventbrite.com/e/hamlet-at-the-unesco-headquarters-paris-m-tickets-23813049472

BURKINA FASO: https://www.eventbrite.com/e/copy-of-hamlet-at-the-unesco-headquarters-paris-b-tickets-23823639146

NIGER: https://www.eventbrite.com/e/copy-of-copy-of-hamlet-at-the-unesco-headquarters-paris-n-tickets-23823723398

Há ainda um número reduzido de ingressos para o público em geral. Pode registar-se aqui: https://www.eventbrite.com/e/hamlet-at-the-unesco-headquarters-paris-tickets-23447802007

quarta-feira, 16 de março de 2016

MACDONALD´S

Estoy en el MacDonald´s de la Plaza de España de Zaragoza,
haciendo la cola gigantesca,
con los ojos clavados en los carteles de los precios,
el dinero justo en la mano derecha,
billetes arrugados.

Estoy ahora en el piso subterráneo, arriba fue imposible.
Estoy sentado al lado de un niño negro que tiene en su mano
una patata amarilla untada de ketchup muy rojo:
Santísima bandera del otro mundo, el niño negro que resplandece, 
mi hermano ciego.
El niño está solo, no bebe,
no le llega para la Cocacola, sólo patatas.
Sólo patatas, sólo patatas, esa desgracia,
esa soledad idéntica a la mía,
¿no lo entiendes?, sólo le llega para las patatas,
y está sentado, quieto,
en su trono, la negritud y el niño,
en el trono, allá, allá, en ese trono radiante.

MacDonald´s siempre está lleno.
Es el mejor restaurante de Zaragoza,
una alegría despedazada nos despedaza el corazón:
Por tres euros te llenan de cajas, de vasos de plástico, de bolsas,
de pajitas, de bandejas.
Es el mejor restaurante del mundo.
                                               Es un restaurante comunista.
Rumanos, negros, chilenos, polacos, cubanos, yo mismo,
aquí estamos, abajo, al lado de un muñeco,
al lado de un cartel que dice "I´m lovin´ it".
                                               Tengo una bota encima de un charco
de un helado de nata deshecho. Miro la nata comerse el tacón de mi bota.
Una nata blanca, despedazada.
Arde el sol sin tiempo, bulle la mano sucia.

A mi lado, una niña de veinte años le dice a un tío de diecisiete
que no le importaría hacérselo con él. Con él, con él, un eco negro.
                                               Y ríen y tragan patatas fritas.
Y yo trago patatas fritas.
Y dos maricas están enfrente comiéndose
                                               la misma hamburguesa goteante,
cada boca en un extremo, y se manchan y
                                               se muerden.
Y tragan patatas fritas. Y se besan. Y se tocan.
                                               Y se despedazan.

En Londres, en París, en Buenos Aires,
en Moscú, en Tokio,
en Ciudad del Cabo, en Tucson, en Praga,
en Pekín, en Gijón,
somos millones, la tarde harapienta,
el dolor en el cerebro, la comida,
millones en miles de subterráneos esparcidos
por la gran tierra de los hombres.

Estoy en paz aquí con todo: barata la carne, barata la vida,
                                               baratas las patatas.
Me siento Lenin. Soy Lenin, el marica inusitado,
el gran hereje, el loco supremo,
el hijo de la última mano miserable que tocó
el monstruoso corazón del cielo.
Si Lenin volviera, MacDonald´s sería el sitio,
el palacio sin luna,
el gueto de las reuniones clandestinas.

Algo importante está sucediendo
en este subterráneo del MacDonald´s
de la Plaza de España de Zaragoza,
                                               pero no sé qué es.
                                               No lo sé.
De un momento a otro, vamos a o o la felicidad:
el niño negro, los novios, el muñeco, la nata del suelo, mis botas.
Botas nuevas, de piel brillante, con la punta afilada en señal de muerte.
                                    En MacDonald´s, allí, allí estamos.
Carne abundante por tres euros.

MANUEL VILAS  [Resurrección]

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MACDONALD´S

Estou no MacDonald’s da Plaza de España de Zaragoza,
a tomar a cola gigante,
com os olhos cravados na lista de preços,
o dinheiro certo na mão direita,
notas amarfanhadas.

Agora estou no piso subterrâneo, lá em cima estava impossível.
Sento-me ao lado de um puto negro que tem na mão
uma batata amarela coberta de ketchup vermelho escuro:
Santíssima bandeira do outro mundo, o rapaz negro que resplandece,
meu irmão cego.
Ele está sózinho, não bebe,
não lhe chega para a Cocacola, só batatas.
Só batatas, apenas batatas, essa desgraça,
essa solidão idêntica à minha,
¿não entendes?, só lhe chega para as batatas,
e está sentado, quieto,
no seu trono, a negritude e o rapaz,
nesse trono, além, mais além, nesse trono radiante.

O MacDonald’s está sempre cheio.
É o melhor restaurante de Zaragoza,
uma alegria despedaçada despedaça-nos o coração:
Por três euros enchem-te de caixas, de copos de plástico, de bolsas,
de palhinhas, de tabuleiros.
É o melhor restaurante do mundo.
É um restaurante comunista.
Romenos, negros, chilenos, polacos, cubanos, eu próprio,
aqui estamos, em baixo, ao lado de um boneco,
ao lado de um cartaz que diz ”I’m lovin’it”.
Tenho uma bota em cima de um charco
de gelado de natas desfeito. Observo as natas em volta do tacão da minha
   bota.
Uma nata branca, desfeita.
O sol arde sem tempo, queima a mão suja.

Ao meu lado, uma miúda de vinte anos diz a um tio de dezassete
que não se importava de o fazer com ele. Com ele, com ele, um eco negro.
E riem e tragam batatas fritas.

E eu trago batatas fritas.
E dois maricas estão em frente a comer
o mesmo hambúrguer gordurento,
cada boca em sua ponta, e engorduram-se e
mordem-se.
E tragam batatas fritas. E beijam-se. E tocam-se.
E desfazem-se.

Em Londres, em Paris, em Buenos Aires,
em Moscovo, em Tóquio,
na Cidade do Cabo, em Tucson, em Praga,
em Pequim, em Gijón,
somos milhões, a tarde maltrapilha,
a dor de cabeça, a comida,
milhões em mil subterrâneos espalhados
pela grande terra dos homens.

Aqui estou em paz com tudo: carne barata, vida barata,
as batatas baratas.
Sinto-me Lenin. Sou Lenin, o maricas improvável,
o grande hereje, o louco supremo,
o filho da última mão miserável que tocou
o monstruoso coração do céu.
Se Lenin voltasse, MacDonald’s seria o sítio,
o palácio sem lua,
o gueto das reuniões clandestinas.

Alguma coisa está a acontecer
neste subterrâneo do MacDonald’s
da Plaza de España de Zaragoza,
mas não sei o que é.
Não sei.
De um momento para o outro, vamos arranhar a felicidade:
o puto negro, os noivos, o boneco, a nata no chão, as minhas botas,
Botas novas, de pele brilhante, de biqueira aguçada em sinal de
      morte.
No MacDonald’s, ali, ali estamos.
Carne abundante por três euros.



segunda-feira, 14 de março de 2016

                                         

                                                           LA CONSECUENCIA

Esto es un árbol. La raíz dice raíz,
rama cada rama, y en la copa
está la sala de recibo
de un mirlo que habla.

La mesa donde escribo
—una fiesta de solteras—
está hecha de madera de ese árbol
convertida por el uso y por el tiempo
en la palabra mesa.

Es porque da frutos que caen
y por el gremio perenne de sus hojas
que se renueva el árbol
y que existe la palabra árbol:

aunque a veces el bosque
lo oculte a la vista, lo contiene
el árbol en la palabra árbol.

Y no es que éste sea un poema abstracto.
Es que las palabras se repiten entre sí
por el sentido: son solteras y sociables
y de sus raíces crece un árbol.

 Mirta Rosenberg, “El arte de perder y otros poemas


A consequência


Isto é uma árvore. A raiz diz raiz,
cada rama, rama e, na copa
fica a sala de visitas
de um melro que fala.

A mesa em que escrevo
- uma festa de solteiras –
é da madeira dessa árvore
convertida, pelo uso e pelo tempo,
na palavra mesa.

É porque dá frutos que caem
e pela aliança perene das suas folhas
que a árvore se renova
e que existe a palavra árvore:

ainda que, por vezes, o bosque
o esconda, contenha
a árvore na palavra árvore.

E não é que este seja um poema abstrato.
É que as palavras repetem-se, entre si,
   pelo sentido: são solteiras e sociáveis
 e das suas raízes cresce uma árvore.

sexta-feira, 11 de março de 2016


Recital de Poesia
21/3/2016 a 21/3/2016

No âmbito das celebrações do Dia Mundial da Poesia 
[UNESCO,1999], a BM Afonso Duarte, integrante da Rede
de Bibliotecas de Montemor-o-Velho realiza um recital de
poesia com textos de “poetas portugueses e estrangeiros,
clássicos e contemporâneos da literatura poética universal.”





Existem hoje 213 as bibliotecas no enquadramento da Rede
Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP) que resulta de um
programa criado em 1987 para dotar todos os municípios de
uma Biblioteca Pública e tem suporte no 


A biblioteca pública – porta de acesso local ao conhecimento – fornece as condições básicas para a aprendizagem ao longo da vida, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural do indivíduo e dos grupos sociais.
A biblioteca pública é o centro local de informação, que torna prontamente acessíveis aos seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os géneros.

Os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social.”





CONCURSO NACIONAL DE LEITURA
10ª ED. - 2015 / 2016


2ª FASE - PROVAS DISTRITAIS



LISBOA, BM LOURINHÃ [05/04/2016 – 3ªF]

3º C - A alvorada dos deuses, Filipe Faria | A cruz vazia, Maria Teresa Maia Gonzalez          
ES - O ano sabático, João Tordo | Flores, Afonso Cruz

CASTELO BRANCO, BM BELMONTE [13/04 /2016 – 4ªF]

3ºC - Recados da mãe, Maria Tereza Maia Gonzalez
ES - No meu peito não cabem pássaros, Nuno Camarneiro

LEIRIA, BM LEIRIA [13/04/2016 – 4ªF]

3ºC - História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, Luís Sepúlveda | Contos vagabundos, Mário de Carvalho
ES - O monge que vendeu o seu Ferrari: uma fábula espiritual, Robin Sharma | Contos, Vergílio Ferreira

GUARDA, BM FORNOS DE ALGODRES [15/04/2016 – 6ªF]
      
3ºC - Recados da mãe, Maria Tereza Maia Gonzalez | Os livros que devoraram o meu pai, Afonso Cruz            
ES - As velas ardem até ao fim, Sándor Marai | O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz

PORTO, BM ALMEIDA GARRETT [19/04/2016 – 3ªF]

3ºC - Supergigante, Ana Pessoa | Mopsos, o pequeno prego: o ouro de Delfos, Hélia Correia
ES - O retorno, Dulce Maria Cardoso | Boa noite, senhor Soares, Mário Cláudio

FARO, BM LOULÉ [19/04/2016 – 3ªF]

3ºC - O estrangeiro, Albert Camus | Casos do Beco das Sardinheiras, Mário de Carvalho    
ES - Terra sonâmbula, Mia Couto | O ano sabático, João Tordo

BRAGANÇA, BM ALFÂNDEGA DA FÉ [20/04/2016 – 4ªF]

3ºC - Supergigante, Ana Pessoa | Trash: os rapazes do lixo, Andy Mulligan           
ES - No meu peito não cabem pássaros, Nuno Camarneiro | Victoria, Knut Hamsun

COIMBRA, BM CONDEIXA-A-NOVA [20/04/2016 – 4ªF]

3ºC – Assim mas sem ser assim, Afonso Cruz | Supergigante, Ana Pessoa
ES - Contos de cães e maus lobos, Valter Hugo Mãe | O senhor Ibrahim e as flores do Corão, Eric-Emmanuel Schmitt

PORTALEGRE, BM PONTE DE SOR [20/04/2016 – 4ªF]
 
3ºC - Eu, Malala, Cristina Lamb e Malala Yousafzai ! A mãe que chovia, José Luís Peixoto    
ES - Morreste-me, José Luís Peixoto | A crónica do Rei Pasmado, Gonzalo Torrente Ballester

VILA REAL, BM CHAVES [21/04 /2016– 4ªF]

3ºC - A ilha encantada, Hélia Correia | A terra que um homem precisa, Lev Tolstoi               
ES - O retrato, Nikolai Gogol | Viagens submersas, Rui Sousa

BRAGA,BM BARCELOS / BM ESPOSENDE [22/04 /2016– 6ªF]

3ºC - Bicicleta à chuva, Margarida Fonseca Santos | Trash: os rapazes do lixo, Andy Mulligan
ES - O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz | Orgulho e preconceito, Jane Austen

AVEIRO,BM OLIVEIRA DE AZEMÉIS  [27/04/2016 – 4ªF]

3ºC - A estrela,  in Contos, Vergílio Ferreira | A Instrumentalina, Lídia Jorge
ES - Aparição, Vergílio Ferreira | Emigrantes, Ferreira de Castro

BEJA, BM FERREIRA DO ALENTEJO [27/04/2016 – 4ªF]

3ºC - Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie
ES - Kurika: romance dos bichos do mato, Henrique Galvão

VIANA DO CASTELO, BM CAMINHA  [27/04/2016 – 4ªF]

3ºC - Gatos e mais gatos, Doris Lessing | A botânica das lágrimas, Pedro Foyos 
ES - O pintor debaixo do lava-loiça, Afonso Cruz | O senhor Ibrahim e as flores do Alcorão, Eric-Emmanuel Schmitt

SANTARÉM, BM TOMAR [ 29/04/2016 – 4ªF]

3ºC - A montanha da água lilás, Pepetela | Para maiores de 16, Ana Saldanha       
ES - Crónica de uma morte anunciada, Gabriel Garcia Marquez | As palavras que hão-de guiar um dia, António Tavares

VISEU, BM SÃO JÕAO DA PESQUEIRA [03/05/2016 - 3ªF]

3ºC - Os livros que devoraram o meu pai, Afonso Cruz | O fantasma de Canterville, Oscar Wilde
ES - O último cabalista de Lisboa, Richard Zimler | Prometo falhar, Pedro Chagas Freitas

ÉVORA, BM MOURÃO [04/05/2016 – 4ªF]

3ºC - História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, Luis Sepúlveda | O meu pé de laranja de laranja-lima, José Mauro de Vasconcelos        
ES - O violino de Auschwitz, Maria Angels Anglada | O amor em tempos de guerra, Júlio Magalhães

SETÚBAL, BM SINES [11/05/2016 – 4ªF] 
          
3ºC - Os livros que devoraram o meu pai, Afonso Cruz | Uma escuridão bonita, Ondjaki     
ES - Dizem que Sebastião, João Rebocho Pais | O dia em que a noite se perdeu, Jorge Araújo


segunda-feira, 7 de março de 2016




escrever poemas não é boa maneira de atordoar os

tempos do verbo,

não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio,

nem perder algures uma perna

e lembrar-me depois de perder ainda a outra:

ninguém ganha assim uma barra de ouro,

ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro,

ninguém transforma assim uma chaga a beleza humana,

tórax e membros e a cabeça por entre a espuma:

e como só de pensá-lo o corpo avança!escrever,

deixar de escrever,

escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa

quanto se pensava

um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,

escrever poemas não é apenas vou ali e já volto à morte do

costume:

colinas tão próximas como se guardassem os nossos próprios

olhos,

e logo depois leva-as o vento para adjectivos longínquos,

tudo tão prodigioso que se não entende nada:

uma rosa é uma rosa é uma rosa - disse ela em inglês

(há quantos anos li isso!)

(há quantos anos fiquei bêbedo desse talhão de roseiras!)

a rose is a rose is a rose et coetera

- mudou-me a vida?

oh faminta ciência da paciência!

coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida,

e então porque não a mudaria uma rosa compactamente

múltipla?

morrer por uma rosa é que fia mais fino:

que fabuloso fio em que roca e em que fuso,

que segredo do mundo
  
in: “Poemas Canhotos”, de Herberto Helder
http://www.ionline.pt/392097


terça-feira, 1 de março de 2016






Acho que perdi toda a minha vida em transportes

      Digo já que a perco porque sei como vai ser

Migração pendular para aqui, migração pendular para ali

       É de facto algo que nunca poderei evitar

                                             Rotina

 O despertador toca, desligo, são sete em ponto da manhã

Claro que quando isto acontece deixo-me adormecer de novo

         Acordo com o sol nas ventas

     Corro para a casa de banho, ajeito-me

      Acho que a camisola de ontem está boa

                  Perfume, dentes lavados

       Caderno fechado, lápis arrumado,

       Outra vez na paragem, a esperar

                                      Entro

                    E o ciclo recomeça.


Duarte Manuel Sousa de Matos Fortuna
1º Ensino Secundário
ES/3 de Palmela