terça-feira, 11 de abril de 2017

Yevgeny Yevtushenko Recites Babi Yar


 
18 Julho 1933 – 1 Abril 2017
 

BABI YAR 

Nenhum monumento supera o Babii Yar.
A pedra sepulcural é pura lágrima.
Eu estou com medo.
Eu sou hoje tão remoto
como todo o povo judeu.
Agora vejo-me
como um judeu.
Aqui arrasto-me através do Egipto Antigo.
Aqui eu morro, crucificado, na cruz,
carregando as cicatrizes deixadas pelos pregos.
Sinto-me como
Dreyfus.
O filisteu é simultaneamente o denunciante
e o juiz.
Sou prisioneiro.
Estou cercado.
Perseguido, cuspido e difamado.
Grito,
enquanto deliciosas senhoras decoradas
com os seus laços de Bruxelas
furam-me o rosto com os seus guarda-chuvas.
Vejo-me então
como uma criança novinha em Bialystok.
O sangue escorre, derramado pelos soalhos.
No salão do bar a multidão desperta
para uma medida de vodka e cebola.
Desamparado, levo com uma bota
um pontapé no traseiro.
Em vão suplico por piedade
aos meus carniceiros.
Enquanto isso troçam e disparam,
"Derrotem os judeus. Salvem a Rússia!"
e um caceteiro bate na minha mãe.
Ó meus povos russos!
Eu sei,
vocês são
internacionalistas.
Mas aqueles que têm as mãos sujas
em vão vos retiraram
a pureza do vosso nome.
Eu conheço a bondade da minha terra.
Mas os anti-semitas são vis
e não caem em delíquo.
Intitulam-se orgulhosamente
de "A União dos Povos Russos!"

Eu vi, como
Anne Frank,
os límpidos ramos da Primavera.
E eu amo.
Não preciso de frases vazias.
Necessito apenas
do que descobrimos dentro de nós.
O que mal se pode ver
ou cheirar!
Não nos deixam partir
e é-nos negado o céu!
Contudo podemos abraçar-nos
ternamente
na escuridão de um quarto.
Eles estão chegando?
Não tenham medo.
É o retinir suave
da própria Primavera -
a Primavera já vem a caminho.
Chegando até mim.
Despeçam-se depressa.
Estão quebrando algo debaixo da porta?
Não, é o gelo que se parte...
A erva selvagem murmura sobre Babii Yar.
As árvores olham agourentas
como os verdugos.
Aqui todas as coisas gritam em silêncio,
e, dentro da minha cabeça,
lentamente, sinto-me
transformado em cinza.
E sou eu mesmo
a soltar um berro tronitruante
pelos muitos milhares aqui enterrados.
Eu sou
cada velhinho
aqui abatido a tiros.
Eu sou cada criança
aqui abatida a tiros.
Nada será esquecido
dentro de mim.
Deixem a "Internationale"
trovejar
quando o último anti-semita na terra
for enterrado para sempre.

Não tenho um pingo de sangue judeu.
Mas, na sua raiva insensível
todos os anti-semitas
devem odiar-me agora
como se eu fosse um judeu.
Mas até por essa razão
Eu sou um verdadeiro russo!

in:
http://jornalggn.com.br/noticia/lembremos-do-massacre-de-babi-yar
(Versão portuguesa: JAG)

 

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